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REVISTA ESPIRITA
JORNAL
DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
6a ANO NO. 9 SETEMBRO 1863
UNIÃO DA FILOSOFIA E DO ESPIRITISMO.
 
Nota. – O artigo seguinte é a introdução a um trabalho completo que o autor, Sr. Herrenschneider, se propôs fazer sobre a aliança entre a filosofia e o Espiritismo.
 
Há dez ou doze anos que o Espiritismo foi revelado na França, as comunicações incessantes dos Espíritos provocaram, em todas as classes da sociedade, um movimento religioso benfazejo que importa encorajar e desenvolver. Neste século, com efeito, o Espírito religioso está sobretudo perdido entre as classes letradas e inteligentes. O sarcasmo voltairiano tirou-lhe o prestígio do cristianismo; o progresso das ciências lhes fez reconhecer as contradições que existem entre os dogmas e as leis naturais; e as descobertas astronómicas tinham demonstrado a puerilidade da ideia que formaram de Deus os filhos de Abraão, de Moisés e do Cristo. O desenvolvimento das riquezas, as invenções maravilhosas das artes e da indústria, toda a civilização protestava, aos olhos da sociedade moderna, contra a renúncia ao mundo. Foi por causa desses motivos numerosos que a incredulidade e a indiferença se introduziram nas almas, que a negligência dos destinos eternos tinha entorpecido o nosso amor do bem, detido nosso aperfeiçoamento moral, e que a paixão do bem-estar, do prazer, do luxo e das vaidades terrestres acabou por cativar quase toda nossa ambição; quando, de repente, os mortos vieram nos lembrar que nossa vida presente tem o seu amanhã, que nossos actos têm suas consequências fatais, inevitáveis, senão sempre nesta vida, mas infalivelmente naquela a vir.

 

Essa aparição dos Espíritos era uma paixão súbita, que fez tremer mais de um ao aspecto desses móveis postos em movimento sob o impulso de uma força invisível; à audição desses pensamentos inteligentes, ditados por meio de uma telegrafia grosseira; à leitura dessas páginas sublimes, escritas de nossas mãos distraídas, sob o impulso de uma direcção misteriosa. Quantos corações batiam, tomados de um medo súbito, quantas consciências oprimidas despertaram em angústias merecidas; quantas inteligências mesmo foram feridas de estupor! A renovação dessas relações com as almas dos mortos é e ficará um acontecimento prodigioso, que terá por consequência a regeneração, tão necessária, da sociedade moderna.

 

É que, quando a sociedade humana não tem outro objectivo de actividade senão a prosperidade material e o prazer dos sentidos, ela mergulha no materialismo egoísta, aprecia todas as acções segundo o bem que delas retira, renuncia a todos os esforços que não levam a uma vantagem palpável, não estima senão aqueles que possuem, e não respeita senão a força que se impõe. Quando os homens não se preocupam senão com os sucessos imediatos e lucrativos, perdem o senso de honestidade, renunciam à escolha dos meios, calcam aos pés a felicidade íntima, as virtudes privadas, e cessam de se guiar segundo os princípios de justiça e de equidade. Numa sociedade lançada nessa direcção imoral, o rico leva uma vida de moleza ignóbil, embrutecedora, e o deserdado nela arrasta uma existência dolorosa e monótona, da qual o suicídio parece ser a última consolação!

 

Contra uma semelhante disposição moral, pública e privada, a filosofia é impotente.

 

Não que os argumentos lhe façam falta para provar a necessidade social de princípios puros e generosos, não que ela não possa demonstrar a iminência da responsabilidade final, e estabelecer a perpetuidade de nossa existência, mas os homens não têm, geralmente, nem o tempo, nem o gosto, nem o espírito bastante reflectido, para prestar atenção à voz de suas consciências e às observações da razão. As vicissitudes da vida, aliás, frequentemente, são muito imperiosas para que se decida ao exercício da virtude pelo simples amor ao bem. Quando mesmo que a filosofia tivesse sido, verdadeiramente, o que deveria ser: uma doutrina completa e certa, jamais teria podido provocar, só pelo seu ensino, a regeneração social de maneira eficaz, uma vez que até este dia não pôde dar, à autoridade de sua doutrina, de outra sanção senão do amor abstracto do ideal e da perfeição.
 
É que aos homens é preciso, para convencê-los da necessidade de se consagrarem ao bem, factos que falem aos sentidos. Preciso lhes é o quadro impressionante de suas dores futuras, para que consintam em subir novamente a rampa funesta onde seus vícios os arrastam; é-lhes preciso tocar com o dedo as infelicidades eternas que se preparam por seu desleixo moral, para que compreendam que a vida actual não é o objectivo de sua existência, mas o meio que o Criador lhes deu de trabalhar pessoalmente no cumprimento de seus destinos finais. Também é por esse motivo que todas as religiões apoiaram seus mandamentos sobre o terror do inferno e sobre as seduções das alegrias celestes. Mas, desde que, sob o império da incredulidade e da indiferença religiosa, as populações se tranquilizaram sobre as consequência últimas de seus pecados, uma filosofia fácil e inconsequente ajudando o culto dos sentidos, dos interesses temporais e das doutrinas egoístas, acabou por prevalecer. Hoje os homens esclarecidos, inteligentes e fortes se afastam da Igreja e seguem suas próprias inspirações; a autoridade necessária lhe faz falta para recobrar sua influência vinte vezes secular. Pode-se, pois, dizer que a Igreja é tão impotente quanto a filosofia, e que nenhuma nem outra exercerão influência salutar sujeitando-se, cada uma em seu género, a uma reforma radical.

 

À espera disso, a Humanidade se agita, os acontecimentos se sucedem, e o aparecimento das manifestações espíritas neste século sábio, prático, suficiente e céptico, sem contradita, dele é o mais considerado. Eis, pois, que o túmulo está aberto diante de nós, não como o fim de nossas penas e de nossas misérias terrestres, não como o abismo escancarado onde vêm se dissipar nossas paixões, nossos gozos e nossas ilusões, mas bem como pórtico majestoso de um novo mundo, onde uns recolherão, malgrado seu, os frutos amargos que suas fraquezas lhes terão feito semear; e outros, ao contrário, se assegurarão por seu mérito a passagem nas esferas mais puras e mais elevadas. É, pois, o Espiritismo que nos revela nossos destinos futuros, e, quanto mais for conhecido, mais a regeneração moral e religiosa ganhará em impulso e em extensão.

 

A união do Espiritismo com as ciências filosóficas nos parece, com efeito, de uma alta necessidade para a felicidade da Humanidade e para o progresso moral, intelectual e religioso da sociedade moderna; porque não estamos mais no tempo em que se podia afastar a ciência humana e preferir-lhe a fé cega. A ciência moderna é muito sábia, muito segura de si mesma, e muito avançada no conhecimento das leis que Deus impôs à inteligência e à Natureza, para que a transformação religiosa possa ter lugar sem seu concurso.
 
Conhece-se muito exactamente a exiguidade relativa de nosso globo para conceder à Humanidade um lugar privilegiado nos desígnios providenciais. Aos olhos de todos, não somos mais do que um grão de pó na imensidade dos mundos, e sabe-se que as leis que regem essa multidão indefinida de existências são simples, imutáveis e universais. Enfim, as exigências da certeza de nossos conhecimentos foram muito fortemente aprofundadas, para que uma doutrina nova pudesse se elevar e se manter sem outra base senão um misticismo tocante e inofensivo. Então, pois, que o Espiritismo quer estender seu império sobre todas as classes da sociedade, sobre os homens superiores e inteligentes, como sobre as almas delicadas e crentes, é preciso que se lance, sem reserva, na corrente do pensamento humano, e que pela sua superioridade filosófica saiba se impor à soberba razão o respeito de sua autoridade.
 
É essa acção independente dos adeptos do Espiritismo, que compreendem perfeitamente os Espíritos elevados que se manifestam. Aquele que se designa sob o nome de Santo Agostinho disse recentemente: “Observai e estudai com cuidado as comunicações que vos são feitas; aceitai o que vossa razão não rejeite, repeli o que a choque; pedi esclarecimento sobre as que vos deixam na dúvida. Tendes aí o caminho a seguir para transmitir, às gerações futuras, sem medo de vê-las desnaturadas, as verdades que distinguis sem dificuldade no seu cortejo inevitável de erros.”
 
Eis, em poucas palavras, o verdadeiro espírito do Espiritismo, aquele que a ciência pode admitir sem derrogar, e aquele que nos servirá para conquistar a Humanidade. O Espiritismo, de resto, nada tem a temer de sua aliança com a filosofia, porque repousa sobre factos incontestáveis, que têm sua razão de ser nas leis da criação. Cabe à ciência estudar-lhe a importância, e coordenar os princípios gerais, segundo a nova ordem de fenómenos. Porque é evidente que, uma vez que não tinha pressentido a existência necessária, no espaço que nos cerca, das almas trespassadas e daquelas destinadas a renascer, a ciência deve compreender que sua filosofia primeira era incompleta, e que os princípios primordiais lhe tinham escapado.
 
A filosofia, ao contrário, tem tudo a ganhar considerando seriamente os factos do Espiritismo; primeiro, porque estes são a sanção solene de seu ensino moral, e que, por eles, provará aos mais endurecidos a importância fatal de sua má conduta. Mas, por importante que seja essa justificação positiva de suas máximas, o estudo aprofundado das consequências, que se deduzem da constatação da existência sensível da alma no estado não encarnado, servir-lhe-á em seguida para determinar os elementos constitutivos da alma, sua origem, seus destinos, e para estabelecer a lei moral e a do progresso anímico sobre bases certas e inabaláveis. Além disso, o conhecimento da essência da alma conduzirá a filosofia ao conhecimento da essência das coisas e mesmo da de Deus, e lhe permitirá unir todas as doutrinas que a dividem em um único e mesmo sistema geral, verdadeiramente completo. Enfim, esses diversos desenvolvimentos da filosofia, provocados por essa preciosa determinação da essência anímica, a conduzirão infalivelmente sobre os traços dos princípios fundamentais da antiga cabala e da antiga ciência oculta dos hierofantes, do qual a Trindade cristã é o último raio luminoso chegado até nós. É assim que, pela simples aparição das almas errantes, chegar-se-á, como temos todo o ensejo de esperar, a constituir a cadeia ininterrupta das tradições morais, religiosas e metafísicas da Humanidade antiga e moderna.
 
Esse futuro considerado, que concebemos à filosofia aliada ao Espiritismo, não parecerá impossível àqueles que têm alguma noção dessa ciência, se consideram o vazio dos princípios sobre os quais se fundam as diversas escolas, e a impossibilidade que disso resulta, para elas, de explicar a realidade concreta e viva da alma e de Deus. Assim é que o materialismo pensa que os seres não são senão fenómenos materiais, semelhantes àqueles que produzem as combinações das substâncias químicas, e que o princípio que os anima faz partir de um pretenso princípio vital universal. Segundo esse sistema, a alma individual não existiria, e Deus seria um ser completamente inútil.
 
Os discípulos de Hegel, de seu lado, imaginam que a ideia, esse fenómeno indisciplinado de nossa alma, é um elemento em si, independente de nós; que ela é um princípio universal que se manifesta pela humanidade e sua actividade intelectual, como também pela natureza e suas maravilhosas transformações. Esta ideia nega, consequentemente, a individualidade eterna de nossa alma, e a confunde, num só todo, com a Natureza. Supõe que existe uma identidade perfeita entre o universo visível e o mundo moral e intelectual; que um e outro são o resultado da evolução progressiva e fatal da ideia primitiva, universal, do absoluto em uma palavra. Deus, nesse sistema, não tem igualmente nenhuma individualidade, nenhuma liberdade, e não se conhece pessoalmente. Ele não se apercebeu a si mesmo, pela primeira vez, que, em 1810, por intermédio de Hegel, quando este o reconheceu na ideia absoluta e universal. (Histórico.).
 
Enfim, nossa escola espiritualista, vulgarmente chamada o ecletismo, considera a alma como não sendo senão uma força sem extensão e sem solidez, uma inteligência imperceptível no corpo humano, e que, uma vez desembaraçada de seu envoltório, conservando em tudo sua individualidade e sua imortalidade, não existiria mais nem no tempo nem no espaço. Nossa alma seria, pois, um não sei quê sem laço com o que existe, e não preencheria nenhum lugar determinado. Deus, segundo esse mesmo sistema, não é mais compreensível. É o pensamento perfeito, e não tem igualmente nem solidez, nem estabilidade, nem forma, nem realidade sensível; é um ser vazio; sem nossa razão nele não poderíamos ver nenhuma intuição. No entanto, quem são aqueles que inventaram o ateísmo, o cepticismo, o panteísmo, o idealismo, etc.? Esses são os homens de razão, os inteligentes, os sábios! Os povos ignorantes, cujas sensações são os principais guias, jamais duvidaram nem de Deus, nem da alma, nem de sua imortalidade. A razão, somente, parece, pois, ser má conselheira!
 
Essas doutrinas, como se pode disso convencer-se, necessitam, em consequência, de um princípio real, estável, vivo, da noção do Ser real. Movem-se num mundo inteligível que não concerne à realidade concreta. O vazio de seus princípios se transporta sobre o conjunto de seus sistemas, e os torna tão subtis quanto vagos e estranhos à realidade das coisas. O próprio senso comum com isso se ofende, apesar do talento e da prodigiosa erudição de seus adeptos. Mas o Espiritismo é ainda mais brutal a seu respeito, transtorna todos esses sistemas abstractos, opondo-lhes um facto único: a realidade substancial, viva e actual da alma não encarnada. Ele lha mostra como um ser pessoal, existindo no tempo e no espaço, se bem que invisível para nós; como um ser tendo seu elemento sólido, substancial e sua força activa e pensante. Mostra-nos mesmo as almas errantes se comunicando connosco, por sua própria iniciativa! É evidente que semelhante acontecimento deve fazer desabar todos esses castelos de cartas e desvanecer, num impulso, essas soberbas bases de fantasia.
 
Mas para aumento de confusão, pode-se provar aos partidários dessas doutrinas subtilizadas, que todo homem leva em sua própria consciência os elementos suficientes para demonstrar a existência da alma, tal como o Espiritismo a estabelece pelos factos; de modo que seus sistemas, não só são erróneos em seu ponto de chegada, mas o são ainda em seu ponto de partida. Também, o mais sábio partido que resta a tomar a esses honrados sábios, é de refundir completamente sua filosofia, e de consagrar seu profundo saber à fundação de uma ciência primeira, e mais precisa e mais conforme à realidade.
 
É que, efectivamente, trazemos em nós mesmos quatro noções irredutíveis, que nos autorizam a afirmar a existência de nossa alma, tal qual o Espiritismo no-la apresenta.
 
Primeiramente, temos em nós o sentimento de nossa existência. Este sentimento não pode se revelar senão por uma impressão que recebemos de nós mesmos. Ora, nenhuma impressão se faz sobre um objecto privado de solidez e de extensão; de sorte que pelo único facto de nossas sensações, devemos induzir que temos em nós um elemento sensível, subtil, extenso e resistente: quer dizer, uma substância. Segundo, temos em nós a consciência de um elemento activo, causador, que se manifesta em nossa vontade, em nosso pensamento e em nossos actos. Consequentemente, é evidente que possuímos em nós um segundo elemento: uma força. Portanto, pelo único facto de que sentimos e de que sabemos, devemos concluir que encerramos dois elementos constitutivos, força e substância; quer dizer, uma dualidade essencial, anímica.
 
Mas essas duas noções primitivas não são as únicas que trazemos em nós. Nós nos concebemos ainda, em terceiro lugar, uma unidade pessoal, original, que fica sempre idêntica a si mesma; e em quarto lugar, um destino igualmente pessoal; porque todos nós procuramos nossa felicidade e nossas próprias conveniências em todas as circunstâncias de nossa vida. De maneira que, juntando essas duas novas noções, que constituem nosso duplo aspecto, às duas precedentes, reconhecemos que nosso ser encerra quatro princípios bem distintos: sua dualidade de essência e sua dualidade de aspecto.
 
Ora, como esses quatro elementos do conhecimento de nosso eu, que nos levam a nos afirmar pessoalmente, são noções independentes do corpo, que não têm nenhuma relação com o nosso envoltório material, é peremptório e evidente, para todo espírito justo e não prevenido, que nosso ser depende de um princípio invisível, chamado Alma; e que essa alma existe como tal, porque tem uma substância e uma força, uma unidade e uma destinação próprias e pessoais.
 
Tais são os quatro elementos primordiais de nossa individualidade anímica, dos quais cada um de nós traz a noção em seu seio, e que cada um não saberia recusar. Em consequência, como dissemos, a filosofia possuiu, de todos os tempos, os elementos suficientes para o conhecimento da alma, tal como o Espiritismo no-la faz compreender. Se, pois, até o presente, a razão humana não conseguiu construir uma metafísica verdadeira e útil que lhe haja feito compreender que a alma deve ser considerada como um ser real, independente do corpo, e capaz de existir por si mesma, substancialmente e virtualmente, no tempo e no espaço, é que desdenhou a observação directa dos factos de consciência, e que, em seu orgulho e sua suficiência, a razão se pôs no lugar e categoria da realidade.
 
Segundo estas observações pode-se compreender quanto importa à filosofia unir-se ao Espiritismo, uma vez que disso retirará a vantagem de se crer uma ciência primeira, séria e completa, fundada sobre o conhecimento da essência da alma e das quatro condições de sua realidade. Mas não é menos necessário ao Espiritismo se aliar à filosofia, porque não é senão por ela que poderá estabelecer a certeza científica dos fatos espíritas que fazem a base fundamental de sua crença, e deles tirar as consequências importantes que contêm. Sem dúvida, basta o bom senso ver um fenómeno para crer em sua realidade; e muitos se contentam com isso; mas a ciência, muito frequentemente, teve motivos para duvidar dos protestos do sentido comum, para não desconfiar das impressões de nossos sentidos e das ilusões de nossa imaginação. O bom senso não basta, pois, para estabelecer cientificamente a realidade da presença dos Espíritos ao nosso redor. Para dela ser certo de um modo irrefutável, é preciso estabelecer racionalmente, segundo as leis gerais da criação, que sua existência é necessária por si mesma, e que sua presença invisível não é senão a confirmação dos dados racionais e científicos, tais como acabamos de indicar alguns deles, de maneira sumária. Não é, pois, senão pelo método filosófico que se pode obter esse resultado. Está aí um trabalho necessário à autoridade do Espiritismo, e é só a filosofia que pode lhe prestar este serviço.
 
Em geral, para triunfar em qualquer empresa que seja, é necessário juntar o conhecimento dos princípios à observação dos factos. Nas circunstâncias particulares do Espiritismo, é muito mais necessário ainda de proceder dessa maneira rigorosa para chegar à verdade, porque nossa nova doutrina toca em nossos interesses mais caros e mais elevados, àqueles que constituem nossa felicidade presente e eterna. Em consequência, a união do Espiritismo e da filosofia é da mais alta importância para o sucesso de nossos esforços e para o futura da Humanidade.
 
 
F. HERRENSCHNEIDER.

As parábolas são pequenas histórias, são alegorias que parecem dizer coisas diferentes daquilo que está escrito. Jesus Cristo ensinava por meio de parábolas quando esteve entre nós. Ele aproveitava os fenômenos da natureza, os costumes rurais, os hábitos do povo, etc. para que pudesse ser mais bem compreendido por aqueles que estavam ali, em busca dos seus ensinamentos.

Não obstante, para compreendermos as parábolas é preciso buscar o verdadeiro espírito das mesmas. Ou seja, é preciso tecer, para melhor entender, uma exegese* até encontrar o sentido espiritual dos ensinos contidos em cada parábola.

A Parábola do Semeador é uma das mais belas parábolas ensinada e explicada por Jesus. Naquele dia, tendo saído de casa, Jesus sentou-se a beira do mar e em torno dele reuniram-se várias pessoas. Ele entrou num barco, sentou-se e começou a falar:

O semeador saiu para semear suas sementes. E quando semeava, uma parte caiu à beira do caminho, vieram as aves e as comeram. A segunda parte caiu nas pedras, onde não havia terra suficiente, logo as sementes nasceram. Mas, veio o sol e as queimaram, matando-as, pois não tinha umidade suficiente. A terceira parte das sementes caiu entre os espinhos, com elas cresceram, mas os espinhos as sufocaram e elas morreram. A quarta e última parte caiu em boa terra e tendo crescido, deu frutos. Umas cem por um, outras a sessenta e outras a trinta.’

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

Então um dos seus discípulos perguntou a Jesus:

– Mestre o que significa o ensino desta parábola?

E Jesus respondeu:

– A vós é dado o direito de conhecer certos mistérios de Deus. Mas a outros ainda não é chegada a hora. Eles ouvem, mas não entendem, mas vós tendes condições. Ele fez uma comparação de quatro tipos de solo de acordo com a evolução espiritual de cada um.

A semente é a palavra de Deus; para os que estão na beira da estrada, para os que estão sob as pedras, para os que estão entre os espinhos e para os que estão sobre a boa terra.

E o semeador desta parábola é Jesus Cristo, as sementes são os ensinamentos de Deus que foram distribuídos pelo mundo. As terras que recebem as sementes representam o estado moral e intelectual de cada um de nós.

O caminho da beira da estrada é um solo compacto, as sementes ficam fáceis de serem comidas pelas aves; assim são os corações endurecidos dos que não se deixam tocar pelas palavras do Senhor. São pessoas que não confiam em ninguém, que valorizam excessivamente os bens materiais, etc. Algumas dessas pessoas nem acreditam em Deus, acreditando que precisam viver com excessos, pois a vida é uma só. Jesus compara as aves aos espíritos maus, que aproveitam a incredulidade e o egoísmo dessas pessoas.

As sementes que caíram nas pedras, as quais morreram por falta de umidade e profundidade do solo são comparadas as pessoas que ouvem as palavras de Deus e ficam encantadas, mudam suas vidas radicalmente e tudo que fazem é voltado para Deus, acreditando que não terão mais problemas. Mas a vida não é assim A escolha e a dedicação em servir a Deus não nos livra das nossas dívidas. Ela nos dá forças para suportarmos as nossas provas e expiações.

Quando surgem os problemas, tais indivíduos ficam decepcionados, sentem-se injustiçados por Deus e abandonam a sua fé. Como diz a parábola, a semente nasceu, mas não tinha raízes profundas para crescer, veio o sol da descrença e queimou a fé.

As sementes que caíram no espinho representam as pessoas que escutam as palavras do Senhor, entendem e até as aceitam, mas têm muitos afazeres, não tem tempo para se dedicar a sua crença, adiam sempre e sempre.

A última parte das sementes que caiu em terra boa, finalmente, diz respeito às pessoas que entendem que a vida material não é tudo, buscam o caminho do Senhor, buscam respostas e consolos para suas aflições, buscam amar ao próximo, a prática da caridade é um hábito em suas vidas. São pessoas que visam mudar os seus vícios para melhor seguir as leis de Deus; Meus irmãos! Deixemos brotar essas sementes dentro dos nossos corações, para que elas possam nascer, florescer e se fortificarem cada vez mais. Vamos “adubar” os nossos corações para que possamos receber os ensinamentos de Deus, sem perder a fé, a esperança, etc., afinal, não podemos deixar que os nossos defeitos sufoquem as “sementes”, isto é, a fé, a palavra de Deus.

Muita paz a todos!

*Exegese é a interpretação profunda de um texto bíblico, jurídico ou literário. A exegese, assim como todo saber, tem práticas implícitas e intuitivas. A tarefa da exegese dos textos sagrados da Bíblia tem uma prioridade e anterioridade em relação a outros textos. Isto é, os textos sagrados são os primeiros dos quais se ocuparam os exegetas na tarefa de interpretar e dar seu significado. A palavra exegese deriva do grego exegeomai, exegesis; ex tem o sentido de ex-trair, ex-ternar, ex-teriorizar, ex-por; quer dizer, no caso, conduzir, guiar.

Por isso, o termo exegese significa, como interpretação, revelar o sentido de algo ligado ao mundo do humano, mas a prática se orientou no sentido de reservar a palavra para a interpretação dos textos bíblicos. Exegese, portanto, é a denominação que se confere à interpretação das Sagradas Escrituras desde o século II da Era Cristã. Orígenes, cristão egípcio que escreveu nada menos que 600 obras, defendia a interpretação alegórica dos textos sagrados, afirmando que estes traziam, nas entrelinhas de uma clareza aparente, um sentido mais profundo. O termo exegese restou ligado à interpretação alegórica, ensejando abusos de interpretação, a ponto de alguns autores afirmarem, ironicamente, que a Bíblia seria um livro onde cada qual procura o que deseja e sempre encontra o que procura.

Ser exegeta é aplicar o texto no contexto cultural da época do texto lido e extrair os princípios morais e culturais para o tempo presente. (by wikipedia).

Não resta dúvida sobre qual é a opinião do Espiritismo a respeito do aborto provocado. O Espiritismo, ressalvando o respeito pelo exercício do livre-arbítrio de cada um, não concorda com a prática do aborto provocado e nos explica sobre as ruins consequências espirituais que este ato pode provocar. Todavia, a única situação em que a Doutrina Espírita admite o aborto é quando a vida da gestante corre perigo de morte; Allan Kardec, na pergunta 359 de O Livro dos Espíritos, indaga a Espiritualidade Superior: “se o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?; responderam os Espíritos: “preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe”.

Antes de continuarmos com esta reflexão, vamos esclarecer alguns pontos sobre o aborto. Pode parecer trivial, mas julgamos necessário:

  1. O que é o aborto? Aquele que nasceu antes do tempo próprio. Parto prematuro ou expulsão do feto antes dos nove meses de gestação O aborto é usualmente definido como a interrupção da gravidez antes de o feto atingir a viabilidade, ou seja, antes de se tornar capaz de vida extra-uterina independente. O aborto distingue-se da morte fetal, do feticídio, do parto prematuro, do infanticídio e do caso dos natimortos;
  2. Como podemos classificar os abortos? Natural ou artificial, espontâneo e involuntário (pode, mesmo assim, haver culpa) ou provocado voluntariamente, dolosamente e penalizado pelo Estado. Podemos falar, também, do aborto clandestino;
  3. Quais são as causas do aborto? As causas são muitas e variadas, sendo difícil avaliar a importância de cada uma delas. Além daquelas referentes à própria mulher (medo à gravidez e ao parto e os poucos recursos financeiros para sustentar o novo rebento), há as de origem familiar (pressão dos familiares, principalmente do marido) e as de ordem social (campanhas contra a fecundidade e famílias numerosas), entre outras causas.

Segundo o Espiritismo, o aborto é um crime, pois transgride as Leis de Deus. Na pergunta 358 de O Livro dos Espíritos, os Espíritos respondem: “Há crime sempre que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, por isso que impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando”. O aborto refere-se à paralisação da vida. No aborto, o feto não tem escolha: a vida lhe é tirada. Há uma infração à lei de Deus. Fala-se em crime. As consequências podem vir em futuras encarnações: quantos casais querem ter filhos e a mulher não consegue engravidar? A impossibilidade de gerar um filho na atual vida poderia ser uma consequência de abortos praticados em outrora encarnação?

O Espiritismo nos esclarece que ao ser realizado um aborto, estamos impedindo  um espírito voltar à vida material e seguir a sua evolução espiritual. Quando uma gravidez é interrompida, estamos impedindo alguém de cumprir a sua trajetório na carne. Para a Doutrina Espírita, abortar é permitir que um espírito deixe de cumprir a sua programação. Não importa se a vida do feto começa na primeira ou décima semana, para a Doutrina Espírita, a vida começa na concepção e esse corpo que esta sendo gerado tem um espírito que o guarda. Interromper a gestação no primeiros ou nos últimos dias é para o Espírita algo inaceitável, afinal, ao corpo que está sendo gerado há um espírito que está o aguardando, esperançoso de conseguir reencarnar novamente. Para a Doutrina, é racional ter pelos fetos o mesmo respeito que se tem pelo corpo de uma criança que está vivendo entre nós. Em tudo isso, vemos a vontade Deus e a sua obra.

Por enquanto, para as nossas leis, o aborto é um crime. Muitos estão tentando descriminalizar o aborto. Entretanto, o aborto poderá deixar de ser crime para os homens, mas jamais deixará de ser uma conduta reprovável moralmente aos olhos de Deus, pois, transgride a lei de Deus. Não é a toa que as religiões são contra o aborto, pois sabem que as leis de Deus são imutáveis. Para o Espiritismo, ninguém vai ser condenado ao inferno porque um dia provocou ou induziu alguém a praticar um aborto. Não obstante, todas as nossas escolhas e ações geram consequências de acordo com a natureza das mesmas. Somos responsáveis pelos nossos atos, pelos nossos erros, etc. Para a nossa Doutrina, tudo o que cometemos de ruim, devemos reparar. Assim nos impele a Lei de Causa e Efeito, lei esta tão abraçada pela compreensão espírita.

A partir do momento que tomamos consciência de um erro, o importante é não repetir o erro. Deus, com certeza, nos dará oportunidade de resgatarmos esse erro, através das reencarnações, da compreensão que precisamos resgatar o que fizemos, seja o aborto, seja outro erro que praticarmos. Jesus dizia para aqueles que ele curava: “Vais e Não peques mais”.

Deus é Pai justo e amoroso e como Pai nos dará oportunidades de repararmos os nossos erros, sem nos condenar ao fogo eterno.

Muita paz a todos!

Os jornais têm cada vez mais noticiado sobre a última tragédia no Rio de Janeiro provocada pelas enchentes que deixaram centenas de mortos e desaparecidos na Região Serrana do Estado. Tal tragédia nos afetou, deixando os nossos corações entristecidos. Diante de destruições como estas, ficamos até mesmo inconformados com as atitudes de Deus: como pode Deus permitir tantos flagelos e tantas destruições, causando sofrimentos às vítimas? Será por acaso? Há alguma razão?

Um dos princípios que permeia a Doutrina Espírita é a lei de causa e efeito. O acaso não existe para o Espiritismo. De acordo com Allan Kardec, a Lei de causa e efeito  é um dos princípios fundamentais preconizados pela Doutrina Espírita para explicar as contingências ligadas à vida humana. Também é conhecida na literatura espírita como Lei da causalidade. Segundo ela, a todo ato da vida moral do homem corresponderia uma reação semelhante dirigida a ele. A Lei de causa e efeito, segundo a compreensão Kardec, distanciava-se da concepção de Karma, erroneamente difundida no Ocidente, por não admitir o determinismo e sim o exercício do livre-arbítrio. A Lei de causa e efeito procura explicar os acontecimentos da vida atribuindo um “motivo justo”, e uma “finalidade proveitosa” para todos os acontecimentos com que se depara o homem, inclusive o sofrimento.

A Lei da causalidade, ou de causa e efeito, está intimamente ligada a Lei de destruição. No Livro dos Espíritos de Allan Kardec, no capítulo VI, item II, perguntas 737  à 741, a Espiritualidade Superior nos explica a razão desses trágicos acontecimentos que muitas vezes, à primeira vista, pode nos parecer desprovido de justiça divina.

Segundo a Lei de Destruição, os flagelos destruidores são permitidos por Deus na medida em que os resultados que deles advêm, e que nem sempre são vistos, admitidos e aceites pelo homem, os levam a uma regeneração moral, dando advento a uma melhor ordem, que se realiza em poucos anos, em vez de alguns séculos. São meios de aceleração do progresso da humanidade que, pelas dificuldades, se vê obrigada a mudar a maneira de agir. Tais meios, porém, são de exceção, pois, regularmente, o homem tem, como meio de progredir, o conhecimento do bem e do mal, que, não sendo convenientemente usado pelo livre-arbítrio, resulta em medidas de exceção, tomadas pela lei de equilíbrio que rege a vida das pessoas, dos grupos, da sociedade, das nações e da humanidade.

Pelo fato dos espíritos preexistirem e sobreviverem a tudo, eles formam o mundo real. Os seus corpos físicos e o meio físico no qual eles desenvolvem as suas potencialidades espirituais são meros instrumentos de aperfeiçoamento do verdadeiro eu espiritual. Portanto, quaisquer flagelos que nos atinjam, enquanto encarnados e pelo tempo que for, nada mais serão que meios de educação para a eternidade. Paciência, resignação, abnegação, desinteresse, amor ao próximo, são sentimentos que caracterizam o homem livre do egoísmo. A forma pela qual eles são conquistados é secundária, tanto podendo ser por adoção como pelo sofrimento que advém da não adoção. Grande parte dos flagelos são resultados da imprevidência e do abuso, como se fossem um contragolpe às manifestações orgulhosas e cheias de vaidade do homem. Ou seja, os flagelos são efeitos de causas “criadas” preteritamente.  

Importante é ressaltar que Deus não castiga a humanidade, a Lei da destruição não provoca efeitos injustos. Tal lei é importante para a evolução da humanidade. Entretanto, é verdade que, às vezes, Deus pode empregar alguns “meios” que para nós são dolorosos e/ou que fogem a nossa compreensão mediana, como 0s flagelos ou as guerras, mas ela é extremamente fundamental para a nossa evolução enquanto espíritos eternos e nada mais refletem os efeitos do exercício do nosso livre-arbítrio.

Por fim, os flagelos são provas que proporcionam ao homem a ocasião de exercitar a inteligência e a resignação ante a vontade de Deus e permitir desenvolver os sentimentos de abnegação. É importante também lembrar que a morte do corpo físico existe para todos nós encarnados. Mesmo que não venhamos a desencarnar em virtude de flagelos, todos nós teremos que deixar a Terra e continuar a nossa vivência espiritual em outras instâncias. Mesmo que não tenhamos vividos flagelos, com certeza, teremos ou já tivemos outras provas e outras expiações em nossa atual existência. Tudo em prol do nosso progresso espiritual, a nossa verdadeira condição.

Diante de tantas provas, flagelos e destruições, precisamos confiar em Deus e em sua justiça, lembrando que nada acontece por acaso, nada acontece sem que Deus o permita.

Eis aqui uma pequena reflexão,

Muita a paz a todos!

Espíritas amai-vos; espíritas instrui-vos.
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